"Crónica da vida que passa"
A Isméria usa pulseira de coiro?
Esta é uma questão que me preocupa. Apesar de não saber quem ela é, estou apostada em passar por um qualquer quiosque e tirar isso a limpo. Vou ver as fotografias, verificar se ela a usa e, em caso afirmativo, que promessa lhe estará associada.
Que tudo isto é muito importante. As Ismérias da nossa sociedade – que também podem dar pelo nome de Pedro, Paulo ou apóstolos quejandos – lembram-me um texto de Pessoa onde se lê:
“Às vezes, quando penso nos homens célebres, sinto por eles toda a tristeza da celebridade.
“A celebridade é um plebeísmo. Por isso deve ferir uma alma delicada. É um plebeísmo porque estar em evidência, ser olhado por todos inflige a uma criatura delicada uma sensação de parentesco exterior com as criaturas que armam escândalo nas ruas, que gesticulam e falam alto nas praças. O homem que se torna célebre fica sem vida íntima: tornam-se de vidro as paredes da sua vida doméstica; é sempre como se fosse excessivo o seu traje; e aquelas suas mínimas acções – ridiculamente humanas às vezes – que ele quereria invisíveis, côa-as a lente da celebridade para espectaculosas pequenezas, com cuja evidência sua alma se estraga ou se enfastia. É preciso ser muito grosseiro para se ser célebre à vontade.
“Depois, além de um plebeísmo, a celebridade é uma contradição. Parecendo que dá valor e força às criaturas, apenas as desvaloriza e enfraquece.”
Quando Pessoa escreveu esta “crónica da vida que passa" tudo isto era verdade. Ainda é.
O problema é que as pessoas de bem, que aderem naturalmente ao princípio (as tais “criaturas delicadas”) cada vez se revêem menos nesta “vida que passa”, desistindo, muitas delas, de criticar a “feira das vaidades” e isso apenas alarga o espectro de acção dos que não sabem estar nem ser.
Fica aqui, pois, um apelo aos homens de génio que – perplexos e alheios ao sistema – se demarcam, às vezes com um suave e quase silencioso bater de porta, do “Estado a que isto chegou”. Não se calem. Neste “castelo abandonado, povoado só de medos…” há portas que se abrem “sem ninguém as ir abrir” mas que importa fechar e a via não passa por bater com as próprias.
É que, oitenta e nove anos depois desta crónica, o circo desceu à cidade.
A cidade é hoje perversa e mudou as regras do jogo.
A celebridade pode ainda ser uma forma de plebeísmo. Mas agora, mais do que nunca, o plebeísmo é quase uma condição “sine qua non” para se atingir a celebridade.
E isto porque as criaturas que a usam não são mais desvalorizadas ou enfraquecidas por ela. Ao contrário, usam a falta de valor (ou valores) e a sua fraqueza (a todos os níveis) como trampolim para a atingir.
Se isto é triste, não sei… acho que é ridículo.
Cabe a cada um de nós (independentemente da reacção ao risível) não permitir que o executivo nos faça “caretas” e conquistar novamente “… a distância do mar ou outra, mas que seja nossa.”
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